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quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Apneia (no Museu de Ovar)

Nem sei bem por onde começar.
Talvez por duas palavras que não têm de ser difíceis. Como as pessoas que elas servirão.
Exitância e Eutimia.
Exitância é radiância. Eutimia é tranquilidade, serenidade.
Então por onde começo?
Pela exitância dos olhos da Elisabeth Leite? Pela eutimia do sorriso da Helena Dias? Pela forma como ambas - e vamos ver se consigo escrever isto de uma forma que esteja à altura de ambas - formam uma expressão e um sentido único que anda entre a beleza e a arte puras? Não preciso de ir muito mais longe: entrei ontem pouco depois das seis e meia da tarde no Museu de Ovar, e a nossa tertúlia só começaria três horas depois.  E as pintoras, que tinham inaugurado aquela exposição pelas quatro, cercaram-nos com a sua arte e a maravilhosa história que as une. Talvez possam dizer que a beleza pessoal pode até contender com a arte. Talvez eu devesse escrever coisas mais pequenas, e afinal falar das pinceladas das duas grandes artistas, nada mais. Mas se alguém o disser, é porque não viu os olhos da Elisabeth ou o sorriso da Helena, aliás vinte anos mais nova do que pretende. E sobre a história pessoal das duas nada vou dizer, por pudor e respeito, mas é verdade que há pedaços de vida tão preciosos que apetece recebê-los com a grandeza que têm. E trabalhá-los como se trabalha o barro. A literatura pode devassar o lado de dentro das pessoas, mas, caramba, não há violência maior do que ter de gerir um arrebatamento com este repente.
E a noite de apneia?
E o João, a tocar flauta transversal, a abrir, a Rita - que tira fotografias maravilhosas - no violoncelo a fechar?
E o Professor Cleto que, não é bem dirigir, erige esse Museu que às dez da noite estava de portas abertas para a rua e a tasca ao lado a aquecer a nossa sala de gargalhadas e conversas?
E a dona Elsa, que pelos visto é a alma daquele lugar?
E a Ana Cunha e o institucional a passar a cúmplice?
E a forma como o José Ferreira disse os poemas?
Ou o Carlos leu a prosa dorida?
As lágrimas na sala, noite dentro, são da vossa responsabilidade. Eu passei metade da sessão encolhido sobre o lenço. Mesmo conhecendo ou suspeitando de que tudo começara de fora para dentro de mim.
E os astros nos olhos da Cristina e da Maria Joana quando os velhos morreram um a seguir ao outro?
E a saudade e o orgulho nos olhos do Joãozinho - que ganhou o prémio da família mais bonita, a filhinha, a mulher, a mana?
E a dignidade da mãe, que estava sentada mas parecia de pé, irredutível, ao vento?
E as maratonas que agora magoam o Elvas?
E a rendição do Jacinto Emerenciano e da sua bonita mulher, embevecida e orgulhosa por ele ter deixado os tremoços e as cervejas para mais tarde (para a próxima também os trazemos, o que achas, Jacinto?) Jacinto é um nome tão bonito.
E aquela espécie de coloratura do Silvério, que não é coloratura nenhuma, mas é assim que se inscreve em nós, uma ópera que sobe, sobe, sobe, que do princípio ao fim da noite te vimos a vida toda com esse queixo levantado, os olhos imersos e o coração a abranger todos?
E o meteoro que caiu entre nós e nos encheu de perguntas? Mas deixamos? Mas não é isto que viemos cá fazer?
A meio da sessão levantou-se um senhor e perguntou: "Posso?"
Ninguém sabia o quê.
"Posso ler poesia?"
Acontece muitas vezes em sessões públicas. Normalmente é rapidamente silenciado ou deixado para o fim. Assim lhe foi dito pelo moderador.
"Mas a minha mulher está em casa sozinha. E se eu demoro fica com frio."
(neste preciso momento sinto o aperto no peito que nos provocou a todos, que pensámos, até à última palavra, que era um homem um pouco louco, talvez pensemos ainda, ninguém para quem era óbvio que, num lugar onde se dizem certos poemas, se podem dizer todos; já não era uma questão de ordem, disciplina, a partir do momento em que ele deu uma explicação mais bela do que qualquer poema todos o queríamos ouvir)
"Chamo-me Bandeira e sou trasmontano."
E leu um belo poema de António Neves Pinheiro.
Pouco depois levantou-se e disse que tinha de ir.
Já sabíamos todos. Porque a mulher estava sozinha e tinha frio. Ele tinha saído de casa, diziam que ia chover, tinha vindo sozinho. Teria dito à mulher, "Eu venho cedo, não te aflijas." E a cara dele encerrava um certo desespero, certamente da solidão e do frio da mulher, em casa, sem ele.
Não vai ser fácil esquecer a beleza que o senhor Bandeira lá levou.
Não é só literatura, poesia, teatro, pintura, futebol, fado, Fátima, dor, riso, memória, nostalgia, portas, janelas. É tudo isto e muito mais do que isto.
É uma questão física.
Chama-se rebentamento do coração.
Como é que aguentas, Carlos?
Dizes à Clarinha - este nome literário, como Jacinto - que eu sei que ela não se chama Rita e que eu, verdadeiramente, não tenho cérebro de peixe, mas gostava?


PG-M 2013
a fonte da imagem dupla das pintoras é esta
a foto do quadro de Elisabeth Leite é de Nuno Sacramento, aqui
as fotografias do José Ferreira, do Professor Cleto e do livro com autógrafo em fundo são da Rita Oliveira

Apoplexia Mariana em ovar

Não adianta sugerir sinónimos. A Mariana chama apoplexia ao que a move. Não é comove, é move, à americana e à portuguesa, ao que não deixa nos ficar no mesmo lugar. Falou da apoplexia depois dos livros, do rectângulo que qualquer realizador de cinema forma com a alma antes de o fazer com as mãos para imaginar um plano. A Mariana leu nove livros nas férias, mas é que leu mesmo, a forma eléctrica de ela falar é o que a literatura é e como deve ser explicada, a Mariana serve-se dos livros para se empolgar e para empolgar os outros. Até me disse que ficou entusiasmada com aquele que estava em cima da mesa sobre 11 de Setembro. Ah, mas esse fui eu que escrevi, Mariana, disse eu. Pronto, não importa, parece interessante, responde a Mariana com naturalidade. Pois não importa, Mariana. Importa o livro, não quem o escreveu. O escritor é sempre pequeno. E em Ovar foram dezenas - não queria arriscar a centena, mas multiplicando as filas pelas cadeiras da frente (Cfr fotografia infra) andou lá perto - a testemunhar a minha pequenez e a compor o magnífico auditório (o melhor que já vi em ambiente escolar, e capaz  desuperar a capacidade equalidade de muitos teatros) da Escola José Macedo Fragateiro, que resolveu celebrar esta não-feriado do 1 de Novembro a aturar-me na qualidade de escritor. A Mariana era uma das jornalistas do Jornal Escolar Trincacevada (que grande nome!), todas meninas muito interessadas com perguntas bem colocadas, como a Catarina e a Filipa, sob a batuta do presciente e sabedor professor Hélder. Antes a sessão tinha começado comigo muito sozinho em cima de um senhor palco a tentar fazer conversa. Antes ainda com uma grande recepção do Hugo, um aniversariante do 11 de Setembro, e amigos, no exterior da escola, que me olharam com aquela curiosidade que nos faz sempre hesitar e perguntar se estaremos à altura dela. Mimo foi o que veio da directora Cecília, tão parecida com a minha avó Belinha, e das professoras Alda, Graça, Rosário e Clara, este nome literário que eu tenho de usar um destes dias. O professor Luís Tarujo salvou a honra dos grunhos heteros, um dos textos que eu ofereci à escola, e que ficou (mil perdões, professor) na dedicatória. E mesmo muito sozinho e distante em cima de um palco grande, toda a gente esteve perto e eu fui chamando os que se iam destacando na plateia. Hoje percebi que não é preciso grande diálogo ou vocação oratória se estivermos sempre atentos ao palpitar da sala. É curioso como há textos que funcionam de forma tão diferente em cada lugar e tempo. Nada substitui, contudo, a absoluta virgindade dos olhares, mesmo entre os aparentemente mais sabidos, ou principalmente neles. Tive como leitores de fragmentos um outro Hugo, o primeiro a deixar fugir uma esperteza, a Sara-directora-de-turma e o Hugo-aniversariante da recepção inicial. Como fotógafo (que promete, pelo que já vi), o Filipe Rilho, que hei-de trazer a todos os lados virtuais, como costumo dizer. E na discussão sobre a pena de morte o Pedro, o Gonçalo, o André, o Leandro e um professor muito desconfiado e irredutível na defesa da pena de morte que encerrou a sessão chamado ao palco com uma ovação para dizer "os meninos estão inquietos para sair", ao que os meninos responderam com riso e recusando debandar. Podia ser melhor? Não. Sobre o stress pós-traumático e de como um homem crescido treme com as histórias do 11 de Setembro, um muito focado João. O núncio portador dos livros foi o caríssimo Professor Cleto, director do Museu de Ovar, hoje meu anfitrião. E como estas não foram as únicas pessoas que me marcaram hoje - estou agora a lembrar-me das meninas dos cadernos, uma era Fabiana, não sei se era a ruivinha, como eu gosto de autografar cadernos de português! - podem imaginar o que acontece a um escritor, mesmo pequenino, como eu, cada vez que entra numa escola. Esta de Ovar, além de bom café e de se notar que é muito ciosa do seu nome antigo (agora querem chamar-lhe agrupamento-de-qualquer-coisa), teve um acolhimento que, a um tempo, é familiar, e a outro abrangente: um verdadeiro abraço - por gasta que esteja a palavra, não está o acto. Fica a gratidão deste vosso servo. A Ovar volto de certeza.


PG-M 2013
fotos de Filipe Rilho